Tudo terá de ser diferente

Poderíamos continuar adormecidos, distraídos, entretidos. Como os outros. Mas naquele momento vemos com clareza que tudo terá de ser diferente. Que teremos de fazer qualquer coisa semelhante a levantarmo-nos de um charco. Qualquer coisa como empreender uma viagem até ao castelo distante onde temos uma herança de nobreza a receber.

(Paulo Geraldo)

Um poema que devíamos ter dito e não dissemos

Ficamos a saber que pouco se aproveita de tudo o que fizemos, de tudo o que nos deram, de tudo o que conseguimos. E há um poema, que devíamos ter dito e não dissemos, a morder a recordação dos nossos gestos. As mãos, vazias, tristemente caídas ao longo do corpo. Mãos talvez sujas. Sujas talvez de dores alheias. E o fundo de nós vomita para diante do nosso olhar aquelas coisas que fizemos e tínhamos tentado esquecer. São, algumas delas, figuras monstruosas, muito negras, que se agitam numa dança animalesca. Não as queremos, mas estão cá dentro. São obra nossa.

(Paulo Geraldo)

Costumamos justificar-nos

Costumamos justificar-nos, enganar-nos a nós próprios e racionalizar qualquer coisa, contanto que encontremos uma saída airosa para a nossa forma de agir. Estamos cada vez mais longe da realidade e, no entanto, as acções e suas consequências estão patentes: posso mencionar, trair e enganar por mil motivos, mas aceitar o facto de que me tornei um mentiroso e um traidor não me agrada absolutamente nada.
Tento encontrar mil justificações que me desculpem, ponho a culpa dos meus actos no que me rodeia ou nas outras pessoas, para, deste modo, fingir que agi correctamente e que sou boa pessoa.

(Nuria Chinchilla & Maruja Moragas, in “Senhores do nosso destino”)

A consciência actua como um dar-se conta do que devemos fazer

A consciência actua como um dar-se conta do que devemos fazer. Não é a decisão de como devemos agir: a decisão vem depois e consiste em seguir ou não o juízo da consciência. A consciência não é a decisão da vontade, mas o perceber com a inteligência. E não julga o que é que mais gostamos, mas o que devemos fazer. Por isso se chama a voz da consciência, como querendo indicar que é algo que ouvimos, que nos é comunicado, que não somos nós que inventamos, mas que deriva da própria situação.

(Juan Luis Lorda)